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Paulo
o Apóstolo das gentes

Aquele que é chamado “o Apóstolo das Gentes”, ou seja, das
Nações, não conheceu Jesus em vida, na cidade de Jerusalém ou
nas estradas da Galiléia, como os Doze Apóstolos. É o primeiro
a ter tido como experiência apenas a do Ressuscitado, como a terão
depois todos os cristãos. Esse judeu nascido em Tarso (atualmente
no leste da Turquia), que recebera do rabino Gamaliel, o Ancião,
um ensinamento rigoroso da Lei, e que é também cidadão romano,
recebe como missão precisa ir pregar a Palavra de Deus a todos os
homens: primeiro em Antioquia e na Ásia Menor, depois na Grécia
e em Roma.
Com Paulo, em poucos anos e de maneira ardente, “de Sião sairá
a Lei e de Jerusalém, a Palavra do Senhor”, como fora
profetizado pelo profeta Miquéias (4,2). Esse “sairá” no
duplo sentido do termo. Paulo dará testemunho do ensinamento
recebido de seus antepassados e do que ele mesmo experimentou:
Cristo ressuscitado!
Paulo é o personagem mais bem conhecido da primeira geração
cristã, tanto pelas cartas (sete indubitavelmente autênticas)
que escreveu quanto pela história de sua vida narrada por Lucas
nos Atos dos Apóstolos. Suas cartas representam para nós uma
fonte excepcional. Sua figura, todavia, continua a ser misteriosa.
De um lado, essas cartas percorrem apenas quinze anos de sua vida.
De outro, os Atos, que trazem seu itinerário, são escritos vinte
anos depois de sua morte, com o tom apologético da época.
Daremos, portanto, preferência aos dados contidos nas cartas de
Paulo e em sua cronologia, que coincide, na maior parte das vezes,
com a duração de seus deslocamentos (por exemplo, a data do
“Concílio de Jerusalém”). Pode-se considerar que Paulo tenha
cerca de dez anos menos que Jesus.
As viagens missionárias
Depois de sua “conversão”, na estrada para Damasco, Paulo
atravessa parte da Ásia Menor (a atual Turquia), da Síria e da
Arábia (a atual Jordânia), até Jerusalém, antes de se dirigir
para a Europa, indo à Grécia e, enfim, a Roma. É razoável
datar suas viagens num intervalo de alguns anos em torno do ano
50.
Primeira viagem
De Antioquia a Chipre e ao sul da Anatólia (Perge, Antioquia de
Pisídia, Icônio, Listra e Derbe), Paulo e Barnabé pregam com
ardor nas sinagogas a Boa Nova da ressurreição e da salvação
em Jesus, fundando comunidades. Então os judeus se dividem e
Paulo se volta, por isso, aos pagãos.
Segunda viagem
O primeiro objetivo de Paulo, acompanhado por Silas, é encontrar
as comunidades que fundou no sul da Anatólia (em Listra,
encontram Timóteo, que os acompanha na viagem). Prosseguem para o
noroeste, até Dardanelos e Trôade, de onde passam à Grécia;
Paulo funda Igrejas em Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e
Corinto. Volta depois a Antioquia, sua base, passando por Éfeso e
Cesaréia. Em Antioquia, pela primeira vez, os fiéis foram
chamados “cristãos”.
Terceira viagem
É uma viagem de consolidação. Paulo revê as Igrejas que fundou
na Anatólia e na Grécia, com Timóteo e Tito. Embarca novamente
para Tiro, Cesaréia e Jerusalém, onde é preso.
Viagem do cativeiro
A viagem do prisioneiro a Roma não é uma viagem missionária,
mas sua atividade de evangelizador não cessará.
A conversão a Cristo
O judeu Saulo estuda em Jerusalém
Paulo
nasce pouco antes do ano 10 da nossa era, em uma família judia de
Tarso, na Cilícia (atualmente no leste da Turquia). Recebe o nome
bíblico de Saulo e o nome romano de Paulo (seu pai, tendo
adquirido a cidadania romana talvez quisesse manifestar alguma
desconhecida gratidão às gentes dos Pauli). Recebeu sua educação
em Jerusalém.
“Como discípulo de Gamaliel, fui instruído em todo o rigor da
Lei de nossos antepassados, tornando-me zeloso da causa de Deus”
(At 22,3). Pelo que dizem os Atos, ele é “fariseu e filho de
fariseus” (At 23,6) e “circuncidado no oitavo dia” (Fl
3,5-6).
O perseguidor
Durante o martírio de Estêvão, “as testemunhas deixaram suas
vestes aos pés de um jovem, chamado Saulo. [...] Saulo estava de
acordo com a sua execução. Naquele dia começou uma grande
perseguição contra a Igreja” (At 7,58.8,1).
Saulo, que defendia com zelo “as tradições paternas” (Gl
1,14) pode até ter feito parte dos zelotes (At 22,3), e isso
explicaria a expedição a Damasco à caça dos missionários
helenistas que contestavam o Templo, como Estêvão, para “forçá-los
a confessar, muitas vezes por meio de torturas” (At 26,11). Isso
esclareceria também dois episódios estranhos: Paulo mal se
agrega à Igreja de Jerusalém e já em seguida tem de fugir de
ameaças de morte (At 9,26-30); mais tarde, quarenta judeus jurarão
assassinar Paulo, então prisioneiro dos romanos (At 23,12-22), e
sabe-se que o partido zelote punia aqueles que traíam seus
juramentos.
A conversão/vocação
Os Atos transcrevem a célebre frase ouvida no caminho para
Damasco: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). O
relato que o próprio Paulo faz sobre a aparição do Ressuscitado
trai uma grande agitação interior, conforme às vocações/conversões
proféticas do Velho Testamento, portadoras também de uma missão:
“Quando, porém, aquele que me separou desde o ventre materno e
me chamou por sua graça se dignou revelar-me o seu Filho, para
que eu o pregasse entre os pagãos, não consultei carne nem
sangue” (Gl 1,15-17).
A “conversão” radical de Saulo não representa para ele uma
mudança de religião: ele se sente mais judeu do que nunca, uma
vez que é o “Deus de seus antepassados” que o manda pregar o
Evangelho. O evangelizador dos pagãos continuará a pregar aos
judeus o quanto possível, até seu último chamado de atenção,
em Roma. A conversão e o batismo de Paulo significam que ele
descobriu seu verdadeiro e justo lugar na vida de Israel.
Ignora-se a data desse acontecimento capital; a Carta aos Gálatas
poderia indicar os anos 33-35, pouco depois da constituição da
primeira Igreja, em Jerusalém, criada em torno de “Pedro, com
os Onze” (At 2,14).
O início do Ministério
Jerusalém: o encontro com Pedro
“Três anos mais tarde”, Saulo vai a Jerusalém para travar
conhecimento com Cefas (de “Pedra”, em grego), o nome que dará
sempre a Pedro — e fica “com ele quinze dias” (Gl 1,18). Sem
dúvida, este último lhe ensina a tradição oral relativa a
Jesus, que Paulo não conheceu (cf. 1Cor 11,23-35), e também uma
interpretação cristológica dos profetas, segundo o ensinamento
do Mestre a seus discípulos.
A visita é discreta: o único outro dirigente da Igreja que Paulo
vê é “Tiago, o irmão do Senhor”. Paulo enriqueceu-se
espiritualmente junto à Mãe-Igreja, mas não conseguiu se
integrar a ela, provavelmente em razão de seu passado de zelador
ou zelote. Foge até de uma tentativa de assassinato por parte dos
judeus de língua grega (At 9,29-30).
Levam-no a partir para Tarso, onde retoma o ofício de construtor
de tendas, continuando a proclamar sua fé nas sinagogas (At
18,3). São anos de amadurecimento pessoal.
Antioquia: início da aventura missionária
No início dos anos 40, Barnabé é enviado pela Igreja de Jerusalém
a Antioquia da Síria para tomar em suas mãos essa Igreja fundada
pelos missionários helenistas expulsos de Jerusalém. Dirige-se a
Tarso para buscar a ajuda de Paulo, e se torna um dos dirigentes
da comunidade, evangelizando com grande sucesso. É o primeiro
afastamento do ambiente da sinagoga, uma vez que Paulo prega também
aos gregos. Forma-se, assim, uma comunidade mista. A “invenção”
do título de cristãos, usado pela primeira vez em Antioquia,
representa um dos mais belos frutos da pregação de Saulo nessa
cidade.
A Igreja de Antioquia será daí para frente o centro de difusão
do Evangelho e viverá independente do Templo e da vida na Judéia.
Essa comunidade de Antioquia dispõe de uma formação e uma
organização sólidas. Assim, durante uma assembléia de oração,
a inspiração da comunidade confirma a vocação pessoal. A voz
do Espírito Santo se faz ouvir: “Escolhei para mim Barnabé e
Saulo para a obra para a qual os chamei”; então, a assembléia
reza, jejua, impõe as mãos sobre os dois homens, e envia-os em
missão.
Barnabé e Paulo tomam o mar, rumo a Chipre. É também o Espírito
Santo que os envia nessa direção: anunciam o Evangelho nas
sinagogas a leste da ilha, em Salamina, depois a oeste, em Pafos.
Lucas, a partir desse momento, chamará Saulo por seu nome romano,
Paulo, sublinhando, assim, que ele assumiu com todos os direitos
sua missão de se dirigir “às nações”.
Fundação de Igrejas na Ásia Menor
Paulo
mergulha em terras pagãs, para além do Tauro, rumo a quatro
cidades estratégicas para Roma, na estrada de Sabastópolis.
Lucas apresenta como primeiro importante discurso missionário de
Paulo o que este fez na sinagoga de Antioquia de Pisídia, nova
colônia romana; diante da má acolhida por parte de uma maioria
de judeus, Paulo se dirige aos pagãos. Paulo e Barnabé vão, então,
para Icônio, Listra e Derbe. Os dois Apóstolos consolidam as
jovens comunidades.
De um lado, encorajam a vida comunitária dos fiéis provenientes
do judaísmo e novos convertidos vindos do paganismo, atraindo a
inimizade dos chefes das sinagogas em que pregam. De outro,
nomeiam “anciãos”, segundo o modelo da Igreja de Jerusalém.
Realizada essa missão, voltam à grande cidade de Antioquia da Síria.
O Concílio de Jerusalém
Por volta do ano 48, apresenta-se em Antioquia o problema relativo
à oportunidade da circuncisão para os não-judeus, quando cristãos
provenientes da Judéia reclamam a “liberdade adquirida em
Cristo Jesus”, que Paulo e Barnabé também invocam para não
impor esse rito aos cristãos vindos do paganismo. A comunidade
decide então interpelar os Apóstolos e os Anciãos de Jerusalém
e lhes enviam Paulo e Barnabé, com seu companheiro grego Tito,
acompanhados de uma delegação.
Apóstolos e Anciãos de Jerusalém aceitam Tito, “não
circuncidado”, reconhecendo, assim, a validade do anúncio de
Paulo a respeito da liberdade da graça. A assembléia confirma
também os principais responsáveis da Igreja e reconhece a vocação
missionária de Pedro, para os circuncidados, e Paulo, para os não
circuncidados. De fato, acontece uma forma de repartição do
campo missionário: Tiago, Cefas e João, para os judeus; Paulo e
Barnabé, para os pagãos.
O incidente de Antioquia
O
incidente ocorrido durante a visita de Pedro a Antioquia
testemunha a retidão de Paulo, para o qual a verdade do Evangelho
não admite adaptações. O que aconteceu? Um cristão judeu
circuncidado não podia, então, sentar-se à mesa de um cristão
pagão sem incorrer em impureza. Ora, no contexto de Antioquia,
Pedro é testemunha da supremacia da fé em Cristo, que reúne a
si todos os homens, e ali confronta esse princípio... até a
chegada de cristãos enviados por Tiago, que preside a comunidade
de Jerusalém (e então Pedro cala seus sentimentos). Paulo, então,
se irrita: “Opus-me a ele abertamente, pois ele merecia censura”
(Gl 2,11).
O compromisso decidido em Jerusalém protegia a existência das
comunidades mistas, como Paulo havia pregado às jovens Igrejas na
Ásia Menor. Todavia, a plena comunhão entre circuncidados e não-circuncidados
era problemática. A salvação de Jesus Cristo deve, portanto,
ser considerada secundária? Paulo reivindica a nova vida na fé,
o dom do Espírito e a supremacia da divina promessa sobre a
lei... Acontece então o conflito entre Tiago e a Igreja de
Jerusalém, aliando-se a Tiago Pedro e Barnabé (hesitantes) e a
própria Igreja de Antioquia, que convalidam o compromisso do Concílio
(At 15,1-40). Paulo viaja acompanhado apenas de Silas. Depois
desse longo noviciado, que durou quinze anos, abre-se para Paulo
um novo período.
Rumo à Grécia
Lídia e a Igreja de Filipos
Em
Tróia, Paulo ouve numa visão o chamado de um macedônio: “Vem
à Macedônia e ajuda-nos!” (At 16,9). De imediato, ele veleja
para a Grécia e pára em Filipos, cidade comercial e colônia
romana povoada por veteranos e camponeses latinos, onde o judaísmo
é influenciado pelo helenismo.
A casa de Lídia, comerciante de púrpura, que se faz batizar com
toda a família e hospeda os missionários durante sua passagem,
torna-se o centro de uma comunidade que se forma rapidamente e será
uma das mais fiéis a Paulo, trazendo-lhe afeto e ajudas materiais
(2Cor 11,8). É com ela que quererá celebrar a Páscoa, alguns
anos depois, antes de sua partida definitiva da região do mar
Egeu.
Paulo logo é acusado de proselitismo pelas autoridades locais.
Nesse tempo, não se distinguia bem o cristianismo do judaísmo.
Ainda que o judaísmo gozasse de um estatuto privilegiado. Paulo,
pela primeira vez, é levado à prisão, ao lado de Silas. À
meia-noite, enquanto estão entretidos a rezar e a cantar, um
terremoto liberta os prisioneiros; vendo as portas abertas, o
centurião tenta se matar. “Estamos todos aqui”, grita-lhe
Paulo. O centurião se faz batizar, com sua família. Paulo
reivindica sua cidadania romana para ser libertado não em segredo,
mas “em triunfo”, antes de voltar para a casa de Lídia.
Tessalônica: lugar de culto familiar
Desta
vez, a oposição vem dos judeus, quando Paulo se dirige à
sinagoga, como de hábito, e explica, com base nas escrituras, que
“era preciso que o Cristo sofresse e depois ressurgisse dentre
os mortos” (At 17,3). A acusação de fomentar uma agitação
contra a lei imperial leva os fiéis a organizarem sua partida
para Beréia. Mas, perseguido pelos judeus de Tessalônica, é
obrigado a fugir mais uma vez, pelo mar, até Atenas, onde será
alcançado por Silas e Timóteo. Pouco depois, a comunidade de
Tessalônica receberá as duas primeiras cartas de Paulo; nelas se
lê o fervor e as inquietações de uma jovem Igreja. Em Tessalônica,
com Jasão, como em Filipos, com Lídia, o lugar de culto e de
religião era a casa, ou seja, a família, com tudo o que
gravitava ao seu redor: as relações sociais e o trabalho.
Atenas, os ídolos
Na
capital do helenismo, onde pessoas de todo o Império Romano vão
estudar, Paulo encontra a cultura grega, e “seu espírito
inflamava-se dentro dele, ao ver cheia de ídolos a cidade” (At
17,16). Ele prega tanto na sinagoga quanto em praça pública —
até no Areópago —, suscitando, assim, a curiosidade de
intelectuais, “epicuristas e estóicos”, mas pouca adesão à
fé cristã. “Encontrei também um altar com esta inscrição:
‘Ao Deus desconhecido’. Pois bem, esse Deus que vós adorais
sem conhecer, é exatamente aquele que eu vos anuncio” (At
17,23). (Paulo não cita esse episódio. Esse tipo de discurso
evoca, ao contrário, a pregação dos primeiros missionários nas
Igrejas helênicas do fim do século I, diante de pagãos
influenciados pelo estoicismo. A ausência de qualquer menção à
cruz e à salvação fazem duvidar do fato de que Paulo tenha
realmente dito essas palavras.)
Início da Igreja
Corinto
Nesta
cidade cosmopolita, onde o culto de Afrodite vem florescendo,
Paulo encontra Priscila e Áquila, um casal de judeus expulso de
Roma em 49 pelo edito de expulsão do imperador Cláudio, “uma
vez que os judeus insurgiam continuamente, instigados por um certo
Chrestos” (Suetônio, Cláudio, 25, 11). Nós os encontraremos
em Roma, depois da morte de Cláudio, em 54, acolhendo o Apóstolo
prisioneiro. Nesse meio tempo, o acompanharão a Éfeso, ocupando-se
da Igreja e evangelizando.
Paulo, que espera “trabalhar” à maneira dos rabinos, de modo
a assegurar a gratuidade de seu serviço apostólico, associa-se
ao casal, confeccionando tendas, como eles. Durante o shabbat, na
sinagoga, ele procura sem descanso demonstrar aos doutores da lei
o messianismo de Jesus; o chefe da sinagoga, Crespo, deixa-se
batizar com toda a família. A Igreja de Corinto, que acolhe também
os pagãos, se desenvolve muito rapidamente. Ela se torna a base
de Paulo a partir do momento em que Roma lhe é negada pelo
decreto de expulsão de Cláudio. Paulo ali permanece por dezoito
meses.
Um problema se impõe cada vez mais freqüentemente: as
autoridades das sinagogas, que se beneficiam de privilégios, não
desejam que os cristãos continuem a ser confundidos com uma seita
judaica dissidente, embora na prática não tenham mais nenhuma
relação de dependência com eles. Acabarão por acusar Paulo de
propaganda religiosa ilícita diante do procônsul Galião (irmão
do filósofo Sêneca). Depois de ouvir a acusação, Galião se
recusa a ouvir a defesa, declarando-se incompetente para julgar,
uma vez que Paulo é judeu e, a seus olhos, essa disputa é
interna à sinagoga (At 18,12-16). Paulo embarca então para
Antioquia e Éfeso, com Priscila e Áquila, que serão, nesta última
cidade, o eixo da futura comunidade. É no final dessa segunda
viagem, em 52, que muitos historiadores inserem o “Concílio de
Jerusalém” e o incidente de Antioquia.
Éfeso: Priscila e Áquila dirigem a Igreja
Este
é o terceiro lugar de difusão da Palavra, nos Atos. Paulo passa
mais de dois anos neste grande centro de intercâmbio cultural,
religioso e comercial, entre o Oriente e o Ocidente, e aqui funda
uma Igreja. O confronto com o judaísmo cede lugar ao encontro com
outras correntes religiosas: Ártemis é a grande deusa de Éfeso.
Priscila e Áquila dirigem a comunidade e ensinam com zelo. Dessa
forma, eles expõem “mais exatamente o Caminho” a Apolo, que
terá grande sucesso como catequista em Éfeso e em Corinto.
Mileto: as estruturas da Igreja
No
caminho de volta a Jerusalém, Paulo, “acorrentado pelo Espírito”,
manda chamar os Anciãos da Igreja de Éfeso. Prediz a eles seu
fim próximo e explicita sua obra: “Vai, porque é para os
gentios, para longe, que eu quero enviar-te” (At 22,21).
Exorta-os à vigilância, ao trabalho, ao auxílio aos pobres e
aos fracos: “Há mais alegria em dar do que em receber” (At
20,35). Enfim, deixa-lhes em testamento a “construção do edifício”,
ou, antes, a entrega ao poder da Palavra, “que tem o poder de
construir”: a atividade da Palavra é primordial, é ela que
constrói a Igreja.
A cena termina com emoção: a assembléia se ajoelha e reza,
Paulo é abraçado; todos se recomendam a Deus e à sua Palavra.
Esse episódio é importante para a história institucional da
Igreja: esses Anciãos, ou presbyteroi, convocados por Paulo, e
que ele qualifica como pastores e bispos, encarregados de
alimentar e guiar espiritualmente, velando (é o sentido do nome
bispo) sobre o povo de Deus, não recebem seus poderes da assembléia
dos fiéis, mas, sim, do Espírito.
No decorrer de seu ministério “independente” e diante de
situações inéditas, Paulo tinha, portanto, de trazer inovações
ao plano doutrinal para poder justificar sua exortação aos fiéis
de que se reunissem em comunidades unidas. De fato, Paulo
conseguiu, por onde quer que passasse, criar Igrejas muito unidas,
para que pudessem subsistir e se desenvolver fora das estruturas
ligadas às sinagogas.
Em Jerusalém
Jerusalém: um líder das Igrejas
Paulo
volta pela terceira vez a Jerusalém para prestar contas aos Anciãos
acerca de sua missão entre os pagãos. Ele chefia uma delegação
de pessoas que representam as Igrejas por ele fundadas, geralmente
pagão-cristãs, mas também discípulos judeus, como Timóteo.
Tornou-se o líder reconhecido (1Cor 12-14) de um grupo de
comunidades locais em contestação com as sinagogas e que levam,
no seio das comunidades pagãs, uma existência autônoma. Ele dá
a elas o nome de Igrejas, segundo a tradição deuteronômica,
reivindicando para cada uma a dignidade de assembléia do povo
escolhido por Deus reservada em primeiro lugar à Igreja de
Jerusalém. Paulo exerce a autoridade de um apóstolo de Jesus
Cristo (1Cor 1-21; 2Cor 1,1), título ao qual é muito ligado.
Mas agora, na capital do judaísmo e diante da Igreja de Jerusalém
presidida por Tiago, onde “milhares de judeus abraçaram a fé”
(At 21,20), pedem-lhe que prove seu apego aos antepassados. Ele
havia escrito aos Coríntios: “Tudo suportamos” (1Cor 9,12).
Por isso, dirige-se ao Templo, para se purificar com um grupo de
nazarenos, “assim todos saberão que tu também é observante da
Lei” (At 21,24). E é aí que será preso.
Prisão no Templo de Jerusalém
Tudo
está pronto para a explosão: o temor levantado pelas pregações
de Paulo nas sinagogas e o desenvolvimento desse cristianismo que
ameaça as estruturas e as leis. Estouram alguns incidentes
durante a chegada de Paulo ao Templo, no sétimo e último dia da
Purificação: terá ido acompanhado de algum grego não-judeu,
profanando assim o santuário? Alguns judeus da Ásia Menor o
reconhecem e instigam a multidão: é expulso do Templo.
Graças à chegada do tribuno e de uma tropa de soldados, Paulo
escapa da morte, e quer ainda falar. “De pé sobre os degraus,
[...] fazendo-se grande silêncio, dirigiu-lhes a palavra em língua
hebraica” (At 21,40): explica sua fidelidade de judeu formado na
escola de Gamaliel, e o encontro desconcertante na estrada para
Damasco, que domina e inspira sua vida. Depois, diante desses
judeus de Jerusalém, acrescenta: “E orando no Templo, sucedeu-me
entrar em êxtase. E vi o Senhor, que me dizia: ‘Apressa-te, sai
logo de Jerusalém, porque não acolherão o teu testemunho a meu
respeito’”. E ainda: “Vai, porque é para os gentios, para
longe, que eu quero enviar-te” (At 22,17.21). Estas últimas
palavras provocam um outro incitamento da turba: de fato,
significa que a Aliança contraída por Deus com os fiéis de
Israel está aberta a todos.
O tempo da prisão e dos processos: Jerusalém, Cesaréia, Roma
Paulo
é conduzido à fortaleza de Jerusalém, mas escapa da flagelação
porque é cidadão romano: primeiro processo, diante do sinédrio.
Depois
de um complô de zelotes judeus que querem matá-lo, é
transferido a Cesaréia: segundo processo, diante do procurador Félix
(anos 57-59). Terceiro processo, diante do sucessor de Félix,
Festo, dois anos depois. Quarto processo, diante de Agripa II:
“Um homem como este nada pode ter feito que mereça a morte ou a
prisão. [...] Bem poderia ser solto, se não tivesse apelado para
César” (At 26,31-32).
A viagem do Cativeiro
No coração da tempestade
Eis
o mais fabuloso relato do Novo Testamento. De Cesaréia a Roma,
“a navegação já se tornava perigosa” (At 27,9) depois da
festa das Expiações — que introduz o outono. De fato, o navio
navega à deriva por quinze dias de Creta a Malta, não se podendo
orientar “nem pelo sol nem pelas estrelas” (At 27,20). O
prisioneiro Paulo se revela mais livre que os 276 membros da
tripulação, capitão, piloto, centurião e marinheiros; ele está
acostumado ao mar e à experiência de três naufrágios (2Cor
11,25) e, sobretudo, tem uma segurança que lhe vem de Deus: “Não
haverá perda de vida alguma dentre vós, a não ser a perda do
navio” (At 27,22), afirma a seus companheiros, quando tudo
parece perdido. “Pois esta noite apareceu-me um anjo do Deus ao
qual pertenço e a quem adoro, o qual me disse: ‘Não temas,
Paulo. [...] Deus te concede a vida de todos os que navegam
contigo’” (At 27,23-24).
Malta
Todos
chegam à ilha, alguns a nado, alguns graças a uma tábua ou
caibro. Essa etapa simples e idílica (“Os nativos trataram-nos
com extraordinária humanidade, acolhendo a todos nós junto a uma
fogueira que tinham aceso”; At 28,2) simboliza a acolhida que o
mundo pagão fará ao Evangelho. Depois do perigo e do naufrágio,
a escala maravilhosa em Malta tem, para Lucas, o gosto da aurora
de uma ressurreição. Uma víbora morde a mão de Paulo enquanto
atiça o fogo; ele a lança no braseiro sem nenhuma dor... e o
povo o toma por um Deus. Paulo, ainda, cura o pai de seu hóspede,
impondo-lhe as mãos, como também a multidão de doentes que
acorre. Finalmente, “cumularam-nos com muitos sinais de estima;
e, quando estávamos para partir, levaram a bordo tudo o que nos
era necessário” (At 28,10).
Roma
Depois
disso, vem Siracusa, Régio e Putéoli. Paulo tem a alegria de ser
acolhido por três irmãos — percorreram 50 km a pé —, já
que o Apóstolo não é um desconhecido: eles receberam dele, três
anos antes, sua grande Carta aos Romanos. Em Roma, ele encontra
também uma comunidade de cristãos, cuja origem se ignora, e da
qual Lucas diz ser numerosa e célebre por sua fé e suas obras. O
cristianismo foi sem dúvida trazido a Roma muito cedo, por
mercadores judeus, e continuou, sem ser notado, perto de algumas
sinagogas. Quando Cláudio morreu, Roma tinha cerca de 50 mil
judeus vindos de regiões muito diferentes, dispersos pela vasta
aglomeração de diversas sinagogas.
Paulo chega a Roma em 61, para aqui ser julgado. Depois de dois
anos de prisão domiciliar, no coração da cidade, perto do Tibre
(o atual bairro judeu), que ele emprega em evangelizar e escrever,
o processo se dissolve por falta de acusadores. Mas, depois do incêndio
de 64, Nero acusa os cristãos de serem os autores do incêndio.
Paulo, assim, é preso, acorrentado no cárcere Marmetino e
condenado à decapitação, que terá lugar fora dos muros
aurelianos, na via Ostiense, mais provavelmente entre 65 e 67.
O martírio em Roma
A abertura da Aliança para todos
O
primeiro gesto de Paulo na capital do Império e também suas últimas
palavras, anotadas nos Atos, foram lançar — mais uma vez — um
apelo aos judeus. Como já havia escrito aos romanos: “O
Evangelho é uma força salvadora de Deus para todo aquele que crê,
primeiro para o judeu, mas também para o grego” (Rm 1,16). De
forma que, no final de sua missão, aquele que o Senhor quis Apóstolo
das Nações não quer se esquecer nem do “menor de meus irmãos”
(Mt 25,40). “Estou carregando estas algemas exatamente por causa
da esperança de Israel” (At 28,20). Ele lança um último e
vibrante chamado à “conversão” de seu povo, à reviravolta
que ele mesmo conheceu. Em Cristo, a Aliança de Deus está de
agora em diante aberta a todos.
A palavra final não é a morte de Paulo, uma vez que se trata, ao
contrário, do desenvolvimento do cristianismo e da Boa Nova
levados para todos os lados pela grande testemunha do Ressuscitado,
que se tornou, à sua imagem, “Luz das Nações” (Is 49,6; At
13,47).
Fonte:
Basílica de São Paulo Fora dos Muros
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